Água e encontro colonial: narrativas em torno das origens de Cuité (PB)
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Resumo
Este artigo empreende uma investigação sobre o encontro colonial que se realizou, na região onde hoje se localiza o município de Cuité (PB), entre colonizadores e populações indígenas em torno de uma fonte hídrica. Ressalta-se a importância de apreender a ocupação dos sertões nordestinos a partir das disputas pelo controle das fontes de acesso à água, quase sempre expulsando, exterminando ou subjugando as populações indígenas que ocupavam esses espaços. O objetivo é desvelar a produção de um discurso colonial que se constituiu nas narrativas sobre as origens do município de Cuité e seu Olho D’Água da Bica. A produção deste discurso não se restringe ao período em que o encontro colonial efetivamente aconteceu na região (Século XVIII), pois sua elaboração é contínua e permanentemente atualizada. A partir de material bibliográfico disponível no Museu do Homem do Curimataú, foram analisadas lendas e narrativas sobre as origens do município. O discurso colonial ressalta a presença indígena anterior à chegada dos colonizadores ao território, mas oculta os conflitos. Estes conflitos, porém, emergem sob a forma de lendas ou de representações estereotipadas e ocidentalizadas das populações indígenas que habitavam a Serra de Cuité. Os discursos de “crise hídrica” contemporâneos podem ser confrontados por estas narrativas de abundância de “água finíssima”, “cristalina” e de natureza exuberante. O reconhecimento destas dicotomias é importante para o desenvolvimento de uma ecologia política da água no semiárido nordestino, pois permite aprofundar a compreensão de que o controle das fontes hídricas expressa desigualdades de poder e uma história de conflitos.
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