A globalização do açaí e sua influência nas práticas agrícolas de camponeses-ribeirinhos do Baixo Tocantins

Conteúdo Principal do Artigo

Renato dos Prazeres Rodrigues
Monique Medeiros

Resumo

Objetivou-se, nesse artigo, compreender as relações entre as práticas de manejo empregadas nos açaizais por camponeses-ribeirinhos da Ilha Guajará de Baixo, Cametá-PA, e os canais de comercialização por eles acessados. Utilizou-se a pesquisa bibliográfica para aprofundamento no contexto histórico do extrativismo do açaí na Amazônia, entrevistas semiestruturadas e o instrumental metodológico de escalas de sombreamento em açaizais. A pesquisa envolveu agricultores de 16 Unidades de Produção Familiares-UPF e pautou-se na abordagem dos tipos de agricultura de Jan Douwe van der Ploeg. Os resultados revelam que a intensificação das práticas de manejo nos açaizais teve início em 2006, devido à maior demanda do fruto pelos mercados. Nas UPF caracterizadas com pouca sombra nos açaizais, todas as famílias acessaram o PRONAF e comercializam o açaí exclusivamente para intermediários. Em UPF com açaizais em escala de média sombra e muita sombra, predomina o tipo de agricultura camponesa e o acesso aos canais de comercialização: intermediário, feira e batedeiras. O fruto açaí em escala muita sombra apresenta melhor qualidade em relação aos demais e detém preferência das batedeiras, que ofertam o melhor preço na compra. Embora o acesso ao intermediário seja percebido como uma conquista para os camponeses-ribeirinhos, esse canal que se delineia guiado pela lógica dos Impérios Alimentares impulsiona as práticas de manejo intensivo nos açaizais e promove a interação com o tipo empresarial de agricultura. Verificou-se ainda que a pandemia da Covid-19 refletiu na dinâmica de venda, visto que a comercialização nas feiras foi interditada, permanecendo ativos os canais de comercialização das batedeiras e de intermediários.

Detalhes do artigo

Como Citar
dos Prazeres Rodrigues, R., & Medeiros, M. (2021). A globalização do açaí e sua influência nas práticas agrícolas de camponeses-ribeirinhos do Baixo Tocantins. Raízes: Revista De Ciências Sociais E Econômicas, 41(2), 228-245. https://doi.org/10.37370/raizes.2021.v41.732
Seção
Dossiê: Sistemas Agroalimentares Contemporâneos
Biografia do Autor

Monique Medeiros, Universidade Federal do Pará

Professora Adjunta na Universidade Federal do Pará (UFPA), atuando no Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (INEAF). Pesquisadora Permanente no Programa de Pós Graduação em Agriculturas Amazônicas (PPGAA/UFPA). Doutora em Agroecossistemas, na área de Desenvolvimento Rural Sustentável, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/PPGA), com Estágio de Doutorado Sanduíche na Unité Mixte de Recherche - Acteurs, ressources et territoires dans le développement (ARTDev) - Université de Montpellier 3 - França (CAPES/COFECUB). Pós-Doutora também na área de Desenvolvimento Rural Sustentável pela UFSC/PPGA. Possui mestrado pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural - PGDR da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (2011) e graduação em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) Julio de Mesquita Filho (2008). Atualmente, é pesquisadora do Laboratório de Estudos da Multifuncionalidade Agrícola e do Território (LEMATE), Vice-líder do Grupo de Pesquisa Inovação, Sociedade e Eco-territorialidades e Líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Rural e Inovação Sociotécnica (DRIS). Os principais temas de trabalho e pesquisa são: diversidade de conhecimentos relacionados ao uso da biodiversidade, desenvolvimento rural, agricultura familiar, associativismo e cooperativismo e tecnologias e inovações sociais.

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