Raça e a questão agrária no brasil ou onde está a raça nos debates agrários brasileiros?
Conteúdo do artigo principal
Resumo
A fim de revisitar a questão agrária brasileira, este artigo exploratório elabora uma perspectiva centrada nas discussões de raça, indica lacunas e sugere potencialidades críticas para a análise e futuras pesquisas e publicações. Ao entender a questão agrária como conceito discursivo e dinâmico, constituído a partir de disputas coletivas por definição de problemas e formas de intervenção, observamos a recorrência de hierarquizações raciais e situações de colonialismo interno que impõem um modelo de sujeito opaco e único do campo, bem como formas de resistência que questionam esse postulado. Identificamos que as formas de hierarquização, controle, subjugação e extermínio de populações racializadas estão presentes nas narrativas hegemônicas de desenvolvimento econômico, social e político, constituídas como meios de subjugação de populações desenraizadas e sistematicamente despossuídas de seus meios de reprodução social. As transformações da plantation e seu fundamento de violência reatualizam a desqualificação dos povos do campo, das águas e das florestas e seus modos de vida, consolidando a imagem moderna da agricultura economicamente viável, lucrativa e integrada que recria violências e esquemas de continuum racial. Contudo, também se observam práticas e formas de resistência que têm sistematicamente demonstrado que a clivagem racial é elemento central de organização, elaboração política e formas de vida na terra.
Detalhes do artigo

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Referências
Autor. Artigo, 2024.
_________. Artigo, 2025.
ABRAMOVAY, R. Paradigmas do Capitalismo Agrário em Questão. São Paulo: EDUSP, 2007.
AKRAM-LODHI, A. H.; KAY, C. Surveying the agrarian question (part 1): unearthing foundations, exploring diversity. The Journal of Peasant Studies, vol. 37, nº 1, pp. 177-202, 2010a.
_________. Surveying the agrarian question (part 2): current debates and beyond. The Journal of Peasant Studies, vol. 37, nº 2, pp. 255-284, 2010b.
BECKFORD, G. Persistent Poverty: underdevelopment in Plantation Economies of the Third World. New York, Oxford University Press, 1972.
BRINGEL, B.; LEONE, M. La construcción intelectual del concepto de colonialismo interno en América Latina: diálogos entre Cardoso de Oliveira, González Casanova y Stavenhagen (1959-1965). Mana, 27 (2), pp. 1-36, 2021.
CARVALHO, J. M. de. A construção da Ordem: a elite política imperial. Teatro das sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
CEFAÏ, D. “Les cadres de l’action collective. Définitions et problèmes”. In: CEFAÏ, D.; TROM, D. Les formes de l’action collective. Mobilisations dans des arènes publiques. Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, 2001.
CUSICANQUI, S. R. Violencias (re)encubiertas en Bolivia. La Paz: La Mirada Salvaje, Editorial Piedra Rota, 2010.
_________. Ch’ixinakax utxiwa: uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores. São Paulo: n-1 edições, 2021.
FAO/INCRA. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento. Brasília, versão resumida do relatório final do projeto UTF/BRA/036, 1994. 24p.
FERREIRA DA SILVA, D. A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
GOMES, F. dos S. Mocambos e Quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil. São Paulo: Ed. Claro Enigma, 2015.
GONZÁLEZ CASANOVA, P. “Colonialismo interno (uma redefinição)”. In: BORON, A. A.; AMADEO, J.; GONZÁLEZ, S. (Orgs.). A teoria marxista hoje. Problemas e perspectivas. Buenos Aires: Clacso, 2007 (pp. 431-458).
_________. “El colonialismo interno” [1969]. In: De la sociología del poder a la sociología de la explotación: pensar América Latina en el siglo XXI. Antologia e apresentação de Marcos Roitman Rosenmann. México: Siglo XXI Editores; Buenos Aires: Clacso, 2015.
HARTMAN, S. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
LINHARES, M. Y. e SILVA, F. C. T. da. Terra Prometida. Uma história da Questão Agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
MCKITTRICK, K. On plantations, prisons, and a black sense of place. Social & Cultural Geography, 12(8), 2011, p. 947-963.
MEDEIROS, L. S. de. Empresariado rural, modernização da agricultura e violência no meio rural brasileiro. Revista Latinoamericana de Trabajo y Trabajadores, 2 (mayo-octubre 2021), pp. 183-214.
MITIDIERO JUNIOR, M. A.; GOLDFARB, Y. O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo. Friedrich Ebert Stiftung Brasil, setembro de 2021. Disponível em: <https://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/18319-20211027.pdf>. Acessado em: 05/06/2025.
MOURA, C. Sociologia política da Guerra Camponesa de Canudos: da destruição do Belo Monte ao aparecimento do MST. São Paulo: Expressão Popular, 2000.
_________. Quilombos: resistência ao escravismo. São Paulo: Expressão Popular, 2020.
NAVARRO, Z. “O mundo rural no novo século (um ensaio de interpretação)”. In: VIEIRA FILHO, J. E. R.; GASQUES, J. G. (Orgs.). Agricultura, transformação produtiva e sustentabilidade. Brasília: Ipea, 2016. (pp. 25-63)
_________. O Brasil rural acabou? Revista de Política Agrícola, v. 30, n. 1, 2021, pp. 142-148.
OLIVEIRA, J. P. de. O nascimento do Brasil e outros ensaios: “pacificação”, regime tutelar e formação de alteridades. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.
PENNA, C. O agro é branco? Seletividade racial e política fundiária no Brasil. Estudos Sociedade e Agricultura, 30 (2), 2022, pp. 1-25.
ROSA, M. C. “Descolonizando a terra, desembranquecendo a sociologia: questões a partir da África do Sul contemporânea”. In: BERNARDINO-COSTA, J.; MALDONADO-TORRES, N.; GROSFOGUEL, R. (Orgs). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.
ROBINSON, C. J. Marxismo negro. A criação da tradição radical negra. São Paulo: Perspectiva, 2023.
RODNEY, W. Como a Europa subdesenvolveu a África. São Paulo: Boitempo, 2022.
SEYFERTH, G. Colonização, imigração e a questão racial no Brasil. Revista USP, n. 53, março/maio, pp. 117-149, 2002.
SOUZA LIMA, A. C. de. Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1995.
YUSOFF, K. A billion black anthropocenes or none. Minneapolis, EUA: The University of Minnesota Press, 2018.
WANDERLEY, M. de N. B. O mundo rural como um espaço de vida: reflexões sobre a propriedade da terra, agricultura familiar e ruralidade. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.
WATTS, M. “The agrarian question”. In: AKRAM-LODHI, A. Haroon; DIETZ, Kristina; ENGELS, Bettina; McKAY, Ben M. Handbook of Critical Agrarian Studies. Cheltenham, UK; Northampton, USA: Edward Elgar Publishing, 2021. (pp. 53-66)